A importância do treinamento de força específico para montanhistas e trilheiros

Casa do Montanhista protetor de cadeirinha de carro​

Você já sentiu aquela tremedeira involuntária nas pernas — o famoso “efeito britadeira” — enquanto descia uma trilha íngreme depois de horas de subida? Ou talvez aquela dor aguda na lombar que surge logo no segundo dia de uma travessia, transformando sua mochila cargueira de 15kg em um fardo insuportável? Se você frequenta o ambiente de montanha, sabe do que estou falando. Muitas vezes, a gente foca demais no equipamento: investe numa bota de última geração, estuda o peso de cada grama do fogareiro e escolhe o saco de dormir com a melhor relação peso-calor. Mas esquecemos que o motor de toda essa aventura é o nosso corpo. E, por mais que o cárdio seja vital para não faltar fôlego na subida, é a força que te mantém inteiro quando o terreno fica técnico ou quando o cansaço bate pesado. O montanhismo e o trekking de longa distância exigem um tipo de força muito específico. Não é sobre ter bíceps gigantes para fotos no cume, mas sobre estabilidade articular e resistência muscular localizada. Pense na descida, por exemplo. Enquanto a subida exige muito do sistema cardiovascular e da força concêntrica (empurrar o chão), a descida é um festival de contrações excêntricas.

Seus músculos precisam “frear” o peso do seu corpo somado ao peso da mochila a cada passo. Sem um quadríceps e glúteos bem treinados, esse impacto vai direto para os seus joelhos. É aí que as lesões de menisco e as inflamações crônicas começam a dar as caras. Para ilustrar, imagine uma situação clássica: a Travessia Petrópolis-Teresópolis. São três dias de sobe e desce constante em terreno acidentado. Se o seu core (a região central do corpo) não estiver fortalecido, a mochila cargueira vai fazer você oscilar lateralmente. Cada oscilação dessas exige um esforço extra dos estabilizadores do tornozelo e do quadril. No final do dia, o cansaço acumulado por essa falta de estabilidade é o que causa as torções e quedas bobas. Um treinamento de força focado em montanha deve priorizar alguns pilares: Exercícios Unilaterais: Na trilha, raramente você está com os dois pés nivelados.

Avanços (lunges), subidas no banco e o agachamento búlgaro são fenomenais porque mimetizam o ato de transpor pedras e degraus altos, trabalhando o equilíbrio e a força individual de cada perna. Fortalecimento de Core: Esqueça os abdominais tradicionais de academia. O montanhista precisa de estabilidade. Pranchas laterais e o “carregamento do fazendeiro” (caminhar segurando pesos) ajudam o corpo a lidar com o centro de gravidade alterado pela mochila. Cadeia Posterior: Glúteos e isquiotibiais fortes são o que protegem sua lombar e dão a propulsão necessária para vencer desníveis positivos agressivos. Eu costumo dizer que o melhor treino para trilha é fazer trilha, mas a musculação específica é o que permite que você continue fazendo trilhas por décadas, e não apenas por algumas temporadas. Além disso, estar mais forte torna a experiência muito mais prazerosa.

Em vez de focar apenas na dor e no sofrimento físico, você passa a ter “sobra” para apreciar a paisagem, bater papo com os parceiros de expedição e chegar ao acampamento com energia para montar a barraca e cozinhar sem parecer que foi atropelado por um trator. A preparação física é, no fim das contas, um item de segurança tão importante quanto o seu GPS ou o seu kit de primeiros socorros. Um corpo resiliente erra menos, reage melhor a imprevistos e se recupera mais rápido para a próxima jornada. Antes de planejar sua próxima grande expedição, olhe para as suas pernas e para o seu core com o mesmo critério que você usa para escolher seus mosquetões ou sua corda de escalada. O investimento em suor no ginásio paga dividendos em silêncio e contemplação lá no alto.